A “música” de Louis-Ferdinand Céline: reflexões sobre sua arte poética na epístola a Milton Hindus
Resumo
A epístola de Louis-Ferdinand Céline a Milton Hindus (1947-1949) constitui um raro espaço de elaboração teórica em meio a uma obra predominantemente literária. Neste trabalho, propõe-se uma leitura das cartas com ênfase nos modos como Céline articula sua concepção de estilo a partir da noção de musique. A música, para ele, é mais que uma metáfora: é o princípio motor de sua escrita, expressão da flor dos nervos, uma melodia interior que busca transpor ao texto o ritmo do corpo e da fala. Ele a opõe à prosa racional e à literatura academicista, sem palpitação, afirmando preferir “morrer em música”. Essa música nasce de si, da observação do mundo, e se realiza na tentativa de recriar a língua falada. Para ele, sua música não é herdada, nem folclórica: é inteiramente pessoal. Apenas o jazz aparece como única arte a ousar algo comparável. Ainda que ironize a necessidade de outro assinar suas canções, Céline insiste: a música é ele. Nossa hipótese, portanto, é de que a musique desvelada nas cartas opera como núcleo formal e crítico de sua escrita, ao mesmo tempo em que tensiona a própria ideia de estilo literário.
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